ENCONTRO SOBRE SUSTENTABILIDADE REÚNE 420 PROFISSIONAIS DA CADEIA PRODUTIVA E APONTA TENDÊNCIAS
No último dia 19 de junho o CTE realizou em São Paulo o Encontro Internacional de Sustentabilidade na Construção, que reuniu 420 profissionais do Brasil, México, Canadá e Estados Unidos. Foram realizadas 14 palestras técnicas sobre as várias dimensões da sustentabilidade e suas aplicações no setor da construção. As palestras realizadas no Encontro podem ser vistas no site do CTE no link: http://www.cte.com.br/eventos/eventos2008/sustentabilidade/palestras.asp
Quais os pontos relevantes que foram debatidos no Encontro?
1. O movimento da sustentabilidade se espraia por vários segmentos industriais e por vários países. No setor da construção temos duas importantes entidades atuando internacionalmente: (1) o World Green Building Council (www.worldgbc.org) que tem origem no modelo americano e promove a difusão dos conceitos de sustentabilidade no mundo, contribuindo com a criação de conselhos de construção sustentável em diferentes países; (2) a Sustainable Building Alliance, originada no modelo francês e que está criando uma rede de entidades visando adoção de critérios para certificação de empreendimentos.
2. A sustentabilidade de empreendimentos tem sua origem no projeto. Em países desenvolvidos vem se adotando o conceito e a prática do Sustainable Design, em que a concepção do produto já incorpora as diretrizes e as tecnologias sustentáveis – eficiência energética, economia de água, materiais reciclados, etc. - como premissas de projeto, sendo posteriormente desdobradas para a especificação dos materiais e para a execução da obra e a operação do empreendimento. No Brasil esta prática é ainda embrionária.
3. O maior impacto dos custos das edificações, se situa na fase de uso e operação dos empreendimentos, considerando uma vida útil de 50 anos. Para edifícios comerciais, em média, 80% dos custos acontecem nesta fase, enquanto 20% acontecem na fase de concepção, projeto e obra. Considerando que os principais recursos consumidos na fase de uso e operação são a água e a energia, é fundamental a adoção de diretrizes de sustentabilidade na etapa de projeto e construção, visando o futuro desempenho ambiental do empreendimento.
4. Os custos de uma construção sustentável são obviamente maiores que de uma construção convencional. Este incremento pode estar em uma faixa de 1% a 6% dependendo da sofisticação do empreendimento, seu tamanho e sua tipologia. Os benefícios gerados por este investimento acontecem ao longo da fase de uso e operação, pois o empreendimento sustentável tem seus custos de condomínio significativamente menores, devido principalmente à economia de água e energia.
5. Hoje dispomos no Brasil de um conjunto de tecnologias sustentáveis para a construção. Temos capacitação para desenvolvimentos de projetos com alta eficiência energética, adotando modelos matemáticos e softwares que simulam o desempenho da edificação e permitem a tomada de decisões sustentáveis. No campo da economia de água temos também no mercado uma série de componentes de baixo consumo, sistemas de captação, tratamento e reuso de água, medição individualizada, irrigação e metodologias de projeto que permitem o uso racional da água.
6. Os processos de fabricação de materiais, execução de obras e uso e operação de empreendimentos geram emissões significativas de carbono e contribuem com o aquecimento global do planeta. As fases que mais geram emissões são a de fabricação dos materiais – extração de matéria prima, fabricação, embalagem, transporte e aplicação – e a de uso e operação do empreendimento ao longo de sua vida útil. A execução da obra propriamente dita tem baixíssima contribuição no total nas emissões de carbono, considerando todo o ciclo de produção do empreendimento.
7. Existem atualmente no Brasil dois modelos de certificação de empreendimentos: o modelo americano que adota as normas LEED como referência e é coordenado pelo Green Building Council do Brasil e o modelo francês AQUA que adota um referencial técnico adaptado ao Brasil e é coordenado pela Fundação Vanzolini da USP. No campo dos materiais e produtos, temos o Selo Ecológico do Instituto Falcão Bauer que avalia a sustentabilidade a partir da Análise do Ciclo de Vida do produto e das boas práticas ambientais e sociais da empresa fabricante.
8. A certificação é apenas uma ferramenta de avaliação de empreendimentos e produtos. A prática efetiva da sustentabilidade na construção tem uma dimensão bastante mais ampla que a certificação. Envolve atitude e postura empresarial para desenvolvimento de empreendimentos, projetos, fabricação de materiais, execução de obras e uso e consumo consciente. Para fortalecer o movimento da construção sustentável faz-se também necessária a participação do Estado na formulação de políticas públicas e das escolas e universidades na adoção dos conceitos de sustentabilidade na formação de arquitetos, engenheiros e demais profissões que atuam no mercado da construção. No Brasil a dimensão social da sustentabilidade assume papel altamente relevante, em especial no setor da construção, onde a remuneração e a qualificação profissional são deficientes e onde há a prática intensa da informalidade.
9. A sustentabilidade tem também uma dimensão corporativa e seus princípios podem ser adotados como valores das organizações. Ela pode ser incorporada pelas empresas como uma estratégia de gestão dos negócios equilibrando os aspectos econômicos, ambientais e sociais. Além dos aspectos ambientais a sustentabilidade deve incorporar a prática da responsabilidade social empresarial focada na melhoria da qualidade de vida e na valorização dos colaboradores da empresa e na interação da empresa com a sociedade e com seus stakeholders – partes interessadas no negócio.
10. Os princípios da sustentabilidade podem ser também aplicados na gestão da cadeia de fornecedores das empresas. Ressalta-se neste sentido a atuação do Programa Tear do Instituo Ethos que vem conduzindo importante trabalho nas cadeias produtivas de empresas líderes, provendo as empresas fornecedoras de conceitos, metodologias e indicadores para a gestão sustentável de seus negócios.
11. O movimento da construção sustentável está em franco progresso no Brasil. Evoluímos significativamente nos últimos dois anos, em especial no campo de projetos, consultoria e tecnologia, induzidos pelos processos de certificação de empreendimento. Muito há por fazer no campo habitacional, na formação profissional, no combate à informalidade, na adoção de práticas de responsabilidade social e na difusão do consumo consciente.
Acrescente sua opinião e faça seus comentários, tendo ou não participado do Encontro.
Escrito por bobdesouza às 19h27
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O DIA DO MEIO AMBIENTE E A SUSTENTABILIDADE NA CONSTRUÇÃO
O dia 5 de junho foi escolhido pela ONU em 1972 como o dia do Meio Ambiente para ser um marco mundial de ações em prol da sustentabilidade. Desde então muito se avançou em todo o mundo e hoje muitas ações setoriais estão em andamento.
A fim de contribuir com a reflexão sobre o tema, segue uma breve síntese sobre alguns caminhos da sustentabilidade no setor da construção.
IMPACTOS DO SETOR
O setor da construção tem forte impacto econômico, social e ambiental. Alguns dados do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS) traçam um cenário sobre o tema e seus desdobramentos:
· 75% dos recursos naturais extraídos são para uso na construção;
· Geração de 80 milhões de toneladas/ano de resíduos;
· Liberação de gases do efeito estufa, como CO2 e Compostos Orgânicos Voláteis (COV) nos vários processos de fabricação de materiais;
· 20% de toda a água é consumida nas cidades, sendo parte desperdiçada;
· A operação dos edifícios é responsável por 18% do consumo total de energia do país e por cerca de 50% da energia elétrica;
· O setor é o maior gerador de empregos diretos e indiretos;
· Parte dos operários da construção se encontra na linha de pobreza;
· A informalidade é prática de mais de 50% das empresas do setor.
Neste contexto a sustentabilidade surge como um conceito que estimula o mercado a adotar um novo olhar e desenvolver formas inovadoras para lidar com as empresas, os negócios e os empreendimentos, gerando resultados para os acionistas, colaboradores, meio ambiente e sociedade.
SUSTENTABILIDADE CORPORATIVA
A sustentabilidade corporativa é uma visão de negócios de longo prazo que incorpora, à estratégia e aos objetivos econômicos da empresa, as dimensões sócio-ambientais.
Um programa de sustentabilidade corporativa tem início com a definição de uma política de sustentabilidade pela alta administração da empresa, ancorada em compromissos e valores a serem praticados pela organização. O foco competitivo é a diferenciação em relação aos concorrentes, alicerçada no desenvolvimento sustentável e no compromisso com as gerações futuras.
A implantação do programa de sustentabilidade corporativa se dá pelo desdobramento da política e dos compromissos e valores, em metas a serem atingidas em um determinado período e que possam ser medidas por indicadores. Dessas metas e indicadores, decorrem os planos de ação, contendo as práticas sustentáveis a serem adotadas e os responsáveis por tais ações.
A fim de evidenciar e comunicar as práticas sustentáveis para as partes interessadas e mostrar o desempenho econômico, social e ambiental da empresa de forma integrada, podem ser adotados os relatórios de sustentabilidade e os balanços sociais, seguindo a metodologia do GRI – Global Reporting Initiative.
SUSTENTABILIDADE DE EMPREENDIMENTOS
A sustentabilidade de empreendimentos está focada no seu desempenho ao longo da sua vida útil. As várias fases e atividades do processo de produção de um empreendimento - concepção, projeto, especificação de materiais, construção e uso e operação - devem ser consideradas na implantação da sustentabilidade.
De forma sistêmica e resumida os aspectos que devem ser considerados para um empreendimento sustentável, são os seguintes:
· Qualidade da implantação, com inserção na paisagem urbana, qualidade do projeto urbanístico, recuperação de áreas degradadas, compensação de passivos ambientais do terreno, preservação da vegetação, eliminação de ilhas de calor, áreas livres permeáveis, áreas de estacionamentos que incentivam o combustível alternativo e o uso de bicicletas.
· Economia de água, com projetos de reuso, captação pluvial, adoção de componentes que reduzam seu consumo, tecnologias inovadoras para redução do volume de esgoto (mictórios e bacias), estação de tratamento de esgoto.
· Eficiência energética, com projetos racionalizados de ar-condicionado, iluminação, transporte horizontal e vertical. Adoção de equipamentos de alto desempenho energético, medição individualizada, energia renovável, energia éolica, aquecimento solar, comissionamento de instalações.
· Qualidade do ambiente interno, com conforto térmico, visual, acústico, ventilação, iluminação natural, qualidade do ar interno, especificação de materiais que não emitam compostos orgânicos voláteis e CFC, controle da fumaça de tabaco.
· Especificação de materiais sustentáveis, com alto teor de reciclados em sua fabricação e baixas emissões de gases que aumentam o aquecimento global, madeira certificada, declaração ambiental do produto, seleção de fornecedores com práticas de responsabilidade social.
· Projeto de coleta seletiva do lixo do empreendimento e previsão de locais para materiais recicláveis.
· Industrialização da construção, racionalização de sistemas construtivos, redução de desperdícios e minimização dos impactos da obra na sua vizinhança, programa de coleta seletiva e gestão dos resíduos.
· Responsabilidade social no canteiro, por meio de ações de inclusão social, educação ambiental e programas de capacitação e inserção da comunidade local;
· Manual de uso e operação do empreendimento, orientando aos administradores do condomínio e aos futuros usuários, para adoção das práticas de uso sustentável, visando atingir o desempenho projetado e previsto ao longo de sua vida útil.
· Adoção de indicadores de desempenho do empreendimento em relação à sustentabilidade, para serem avaliados na fase de uso e operação, propiciando dados e informações para a gestão do condomínio e gerando benchmark para a concepção e projeto de novos empreendimentos.
Um mecanismo que vem ganhando corpo no setor diz respeito à certificação dos empreendimentos. No Brasil os modelos que vêm sendo adotados são o americano, com base nas normas LEED do USGBC - US Green Building Council e o francês, com base na certificação AQUA – Alta Qualidade Ambiental, conduzido pela Fundação Vanzolini.
De forma lenta e gradual o setor vem buscando um caminho sustentável.
Temos então motivos para comemorar o dia do Meio Ambiente e para difundir e intensificar as práticas sustentáveis na construção.
Faça sua parte!
Escrito por bobdesouza às 19h13
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