Arquivos

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros links
 CTE
 CBCS
 AUTODOC
 GBC Brasil




Blog do Roberto de Souza
 


MERCADO IMOBILIÁRIO, ENTRE A EUFORIA E O PÂNICO

Nestes últimos trinta dias venho presenciando fatos, ouvindo frases e presenciando atitudes e comportamentos de líderes e profissionais do setor que fogem ao padrão normal.

Há dois anos estamos vivendo uma euforia contagiante: as grandes empresas abriram o capital, o credito imobiliário cresce significativamente a cada ano, os prazos de financiamento se alongam, os lançamentos se multiplicam e as vendas crescem. Todos os indicadores são positivos e as noticias muito boas.

Tudo vai muito bem, a menos de alguns fatos e dados:

1) As ações das empresas que fizeram IPO têm perdido valor continuamente. Há empresas que valem hoje 70% menos que valiam no momento da abertura do capital. Será que foram super avaliadas pelos bancos? Será que estão sendo arrastadas pela desvalorização das bolsas mundiais? Será que falta um trabalho mais consistente por parte dos diretores de relacionamento com investidores junto aos analistas financeiros? Ou será que há uma percepção do mercado que muitas das empresas não vão entregar os resultados que prometeram?

2) Para agitar o ambiente, se esboça um movimento de fusões e aquisições. Em paralelo algumas empresas, por falta de caixa, resolvem vender seu “land bank”, para se capitalizar. Assim tão de repente constata-se que a empresa está sem caixa? Qual a lógica então de se comprar um grande número de terrenos em várias cidades do País? Compra-se um terreno com um estudo de viabilidade feito, onde fica clara a exposição de caixa necessária para concretizar o empreendimento. Que acontece? Não estamos fazendo estudos de viabilidade ou não estamos fazendo planejamento e gestão financeira?

3) A indústria de materiais cresceu 6,35% em 2006, 15,47% em 2007 e 28,21% até junho de 2008. Em contrapartida o parque produtivo está com 87% da sua capacidade tomada para atender a demanda atual. Caso não haja novos investimentos em novas fábricas, a matemática elementar aponta, em um curto prazo, para a falta de materiais.

4) O lugar comum em todas as instâncias de discussão do setor é a falta de profissionais qualificados. Faltam diretores, gerentes, engenheiros, arquitetos, mestres, operários e serventes. A preocupação reinante entre as empresas é: Quem vai roubar meus profissionais ou quem será roubado? O que faço? Aumento os salários e o custo fixo ou implanto a remuneração variável?

5) As grandes empresas e parte das empresas da cadeia produtiva cresceram significativamente nos dois últimos anos. Empresas que tinham 8 empreendimentos por ano, hoje tem 80, o que significa desenvolver 80 projetos, construir e entregar 80 obras, absorver dez vezes mais clientes e aumentar na mesma proporção o número de processos administrativos e financeiros. Em contrapartida os modelos de gestão empresarial e o planejamento não têm acompanhado esta velocidade, gerando riscos de gestão em todos os níveis da empresa, do planejamento estratégico ao canteiro de obras.

6) No canteiro de obras o que tenho visto, preocupa. Os engenheiros mais experientes ou foram para postos de direção e gerência ou para a área de incorporação. Nas obras estão os jovens, com equipes também menos experientes, recebendo projetos pouco detalhados, com um incipiente planejamento e falhas na gestão de processos. Com estes ingredientes fica formado o caldo que propicia o aparecimento de problemas de prazo e qualidade nas obras, gerando potenciais desconfortos para os clientes finais dos empreendimentos. De passagem ressalta-se que os departamentos de assistência técnica vêm também crescendo e recebendo heranças não tão interessantes.

7) Com todo este crescimento é claro que os custos de construção têm aumentado, assim como tem se elevado o custo dos terrenos, criando desafios para a produção e entrega dos empreendimentos que já foram lançados, assim como impactando o preço final dos futuros empreendimentos.

Todos estes fatos têm gerado na cabeça e na psique de empresários e profissionais do setor, comportamentos, sentimentos e atitudes interessantes e algumas vezes contraditórias.

Alguns têm adotado a postura da euforia do tipo: esperamos 30 anos por este momento, tudo está ótimo e não podemos ser pessimistas apontando problemas, pois o próprio mercado vai se encarregar de corrigir os desvios de rumo. Em resumo, tudo vai dar certo, e o mercado resolve!

Alguns se colocam no extremo oposto, adotando uma postura de medo, às vezes beirando o pânico: o crescimento é insustentável, o setor está dando um tiro no próprio pé, as empresas líderes incentivam práticas predadoras, apertando fornecedores, não se importando com a qualidade e com o atendimento às normas e colocando gente sem preparo para gerir a empresa e suas obras. Em resumo, isto tudo não vai dar certo!

E há naturalmente o caminho do meio, sempre mais próximo da realidade.

Eu me incluo neste caminho. Estou otimista com o crescimento do mercado mas creio que não devemos tapar o sol com a peneira e esconder os problemas. Eles existem, devem ser profundamente diagnosticados e enfrentados com muita decisão e competência.

Identifico dois grandes grupos de ações.

Um primeiro que deve ser conduzido por cada uma das empresas do setor de acordo com o foco do seu negócio. São questões relativas à estratégia e gestão empresarial, governança corporativa e gestão de riscos, gestão de processos e da qualidade, relacionamento com os clientes e fornecedores, gestão dos custos e da produtividade, tecnologia da construção e da informação, gestão do meio ambiente e da responsabilidade social, gestão de pessoas e do conhecimento, ou seja questões estreitamente ligadas com a competitividade e sustentabilidade de cada empresa.

Um segundo grupo de ações deve ser conduzido de forma setorial, pelas entidades e lideranças do mercado. São questões relativas à melhoria do ambiente competitivo onde se inserem as empresas, questões relativas à formação, capacitação e qualificação dos profissionais atuantes no setor, estabelecimento de acordos setoriais visando garantir o fornecimento, os custos e a qualidade dos materiais, capacitação do setor público para garantir uma correta interpretação da legislação e os prazos de aprovação de projetos, racionalização das leis e normas a que o setor está submetido, definição de políticas públicas que incentivem o setor a se modernizar e buscar a sustentabilidade e ações de desburocratização e redução de impostos.

E você qual seu sentimento? Euforia, pânico ou o caminho do meio?

Faça seu comentário e contribua com o debate!

 



Escrito por bobdesouza às 19h20
[] [envie esta mensagem
] []



 
  [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]