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Blog do Roberto de Souza
 


A CRISE EM AÇÃO PROVOCA O REDESENHO DE EMPRESAS E NEGÓCIOS DA CONSTRUÇÃO

A crise literalmente está em ação e chegou nas empresas do setor da construção.

No início da crise, ainda em outubro de 2008, assustadas com os ventos mundiais e a restrição de crédito, as empresas incorporadoras pararam de lançar novos empreendimentos e de prospectar terrenos. Ato contínuo, nos meses seguintes vieram as demissões das equipes de novos negócios, incorporação, marketing e lançamentos. O exército de jovens com altos salários e gordos bônus, cedeu lugar a pequenas equipes, espartanas e com várias atribuições, olhando com cautela e pouco apetite novos terrenos e tratando de colocar força na venda do estoque de remanescentes.

Neste mês de janeiro visitei umas 20 empresas de vários segmentos da cadeia produtiva e é óbvio que a conversa sempre se inicia pela crise. O que deu para sentir como resumo destas conversas?

Como consequência da redução do ritmo de novos negócios, os projetistas sentiram o baque e a grande quantidade de estudos e projetos antes solicitados, diminuiu significativamente. As agências de publicidade e as imobiliárias responsáveis pelas vendas, sem novos lançamentos, viram seus negócios minguarem e vieram também na sequência a redução de equipes e as demissões. Estima-se que em janeiro de 2009 tivemos no Brasil 10 lançamentos de empreendimentos contra momentos de pico em 2008 onde chegamos a lançar, em um único mês, 240 empreendimentos. Enfim todos os envolvidos nos processos de prospecção, incorporação, projetos e vendas, estão sentindo a crise na própria pele.

Como a quantidade de lançamentos em 2007 e 2008 foi muito elevada, temos ainda muitos projetos executivos em andamento e muitas obras a concluir. Afinal há milhares de clientes esperando seus imóveis ficarem prontos e a prioridade das construtoras é fazer caixa e entregar suas obras, talvez com alguns atrasos. Na área de engenharia não se observam demissões e há até empresas contratando profissionais para executar as obras. Temos um fôlego para 2009 e 2010, até que se encerre o ciclo das obras em desenvolvimento.

Todo este impacto tem originado um movimento de redesenho das empresas e dos negócios imobiliários. 

No campo dos negócios verifica-se uma mudança brusca. Empresas que atuavam no médio e alto padrão, deixam de lado o padrão médio/alto e alto e voltam seu foco para unidades no máximo de R$500 mil. Ao invés da procura por grandes terrenos para lançar grandes VGVs, a busca se orienta para terrenos menores ( entre 2.000 a 5.000 m2) que gerem um número menor de unidades (entre 50 e 100 unidades) e um baixo valor de VGV (entre R$20 e R$40 milhões). Um claro sinal de gestão de riscos do negócio em uma economia em crise. Outro dado que ilustra o momento de crise é a redução brusca dos valores de VGV anuais das incorporadoras. Enquanto em 2008 só se falava de metas anuais focadas no bilhão de reais, hoje já há grandes empresas voltando ao foco do milhão de reais.

De outro lado todas as iniciativas do governo para combater a crise no setor da construção, estão focadas no PAC - Programa de Aceleração do Crescimento e na área habitacional. Neste caso o dinheiro está sendo prometido para a habitação econômica e super-econômica. Tudo indica que teremos uma injeção de recursos e um ciclo de construção voltados à habitação de interesse social (ou popular com se chamava antigamente). Atentas a este movimento várias empresas começam a se preparar para trabalhar forte no segmento econômico, principalmente se o governo, como está sendo dito, comprar diretamente as unidades habitacionais das empresas e financiá-las com recursos da CAIXA.

Na gestão das empresas de incorporação e construção vem ocorrendo também um redesenho. Começa pela redução da área física dos escritórios pela necessidade de diminuir os custos diretos. Em algumas empresas observa-se também um enxugamento do número de diretores e gestores, com menos gente fazendo mais coisas. Um aspecto importante que se observa é a mudança de foco dos executivos das empresas que sai do plano puramente estratégico e aprofunda nas questões táticas e operacionais. Conselhos de administração e executivos vêm se debruçando semanalmente e muitas vezes diariamente sobre o planejamento de 2009 e o caixa da empresa. Um dos executivos com quem conversei nestes últimos dias me disse que hoje está conduzindo a empresa pelo estilo "gestão pelo Excel".

Diretores técnicos que haviam se distanciado das compras e obras, passam a olhar com mais cuidado e constância as negociações com fornecedores e os canteiros de obras. E muitas vezes o que têm encontrado não é muito gratificante...em termos de prazos, custos e qualidade.

Enfim, o mundo mudou e o setor também, e rápido.

A volta ao foco das operações e do caixa tem um lado positivo pois aproximam os diretores e gestores da vida real, e do chão de obra. Certamente neste processo de mudança vamos resgatar a engenharia, os programas de gestão da qualidade, a tecnologia da construção, a segurança do trabalho, a gestão de custos e da produtividade, conquistas importantes que tivemos de 1994 a 2006 e que começamos a perder nos anos de 2007 e 2008 com o crescimento frenético e muitas vezes deslumbrado do mercado.

Mas há um porém nisto tudo. O movimento é positivo, mas não pode ficar só focado na operação. É hora de redesenhar também a estratégia competitiva das empresas e seus modelos de gestão. A pergunta é: como criar, durante a crise, vantagens competitivas e se preparar para a retomada do crescimento do mercado daqui um ou dois anos?

Embora haja incertezas e opiniões diferentes sobre o tempo de duração da crise, há unanimidade de que o Brasil vai estar bem posicionado em relação aos investimentos internacionais no momento da retomada. Outro consenso é que o mercado imobiliário brasileiro tem um enorme potencial de crescimento, haja vista que o indicador que mede o desempenho do mercado, calculado pelo total de crédito imobiliário dividido pelo PIB, no Brasil está em torno de 2% enquanto no México atinge 13% e no Chile 18%. Ou seja há ainda muito por fazer.

Oportunidades para criar vantagens competitivas não faltam. Podem se dar no desenvolvimento de produtos imobiliários inovadores, no desenvolvimento de novas tecnologias de construção, na incorporação dos conceitos e princípios da sustentabilidade nas empresas e nos empreendimentos, na integração de projetos e na engenharia simultânea, na aplicação da tecnologia BIM, na incorporação da filosofia do Lean Production e na inovação do marketing imobiliário e das estratégias de vendas. E em vários outros aspectos da gestão empresarial, envolvendo a governança corporativa, a gestão financeira, a tecnologia da informação, a gestão de processos, a gestão de pessoas e a gestão do relacionamento com o cliente.

Enfim estamos perante um mar de oportunidades para a criação de vantagens competitivas.

Hoje o que se esboça é um movimento de mudança profunda do setor em direção às empresas e negócios reais. Em minha opinião este movimento, além de aproximar os executivos e gestores da realidade para fazer o dever de casa que a crise exige, tem que ter um norte estratégico, orientado para atender grandes escalas de produção com excelência e competência empresarial, com foco na inovação e em uma gestão altamente profissionalizada a fim de promover o desenvolvimento sustentável da cadeia produtiva da construção, gerando resultados econômicos, ambientais e sociais.

 



Escrito por bobdesouza às 20h10
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